Pesquisa revela que 1 em cada 4 mulheres com endometriose sente dor quase todos os dias

Pesquisa revela que 1 em cada 4 mulheres com endometriose sente dor quase todos os dias

A endometriose é uma doença crônica, sem cura, que atinge de 10 a 15% das mulheres em idade fértil. Para traçar um perfil das pacientes e entender melhor os impactos da endometriose na vida das mulheres brasileiras, o Gapendi (Grupo de Apoio às Portadoras de Endometriose e Infertilidade), juntamente com o ginecologista Dr. Edvaldo Cavalcante, especialista no tratamento clínico e cirúrgico da endometriose, realizaram uma pesquisa com 3 mil mulheres, entre os meses de janeiro e fevereiro de 2018. Confira abaixo os resultados. Diagnóstico e Tratamento A pesquisa brasileira confirmou o que a literatura internacional mostra: o diagnóstico da endometriose é demorado. Por aqui, 38% das mulheres demoram de 5 a 8 anos para ter a confirmação, sendo que 14% demoram mais de 8 anos. A média mundial é de 7 anos. Além da demora no diagnóstico, as entrevistadas afirmaram que tiveram de passar por vários médicos até chegar a um especialista capaz de dar a palavra final e tratar adequadamente a condição. No Brasil, a pesquisa mostrou que 74,8% das mulheres precisaram visitar mais de 3 médicos para receber a confirmação do diagnóstico.  Em relação ao tratamento, 7 em cada 10 mulheres com endometriose precisaram fazer ao menos uma cirurgia para tratar a doença. Dor crônica Um dos aspectos que mais impactam na qualidade de vida das mulheres com endometriose é a dor. E esse sintoma faz parte, quase que diariamente, da vida de 25% das entrevistadas. E para 35% delas, a dor está presente cerca de 15 dias por mês. “Embora algumas mulheres sejam assintomáticas, essa pesquisa mostrou que no Brasil a maioria das pacientes sente dor. A dor é um dos sintomas que mais afetam a saúde física e emocional das mulheres, podendo inclusive impedi-las de realizar as atividades mais básicas, como trabalhar, estudar, namorar, entre outras”, comenta Dr. Edvaldo. E a pesquisa corroborou essa informação: 8 em cada 10 mulheres afirmaram que já deixaram de trabalhar, namorar, sair com amigos, brincar com os filhos, limpar a casa, entre outras atividades cotidianas, devido à endometriose. Vida profissional Como qualquer doença crônica, a endometriose interfere negativamente na vida profissional das mulheres com esta condição. A pesquisa revelou que 6 em cada 10 faltam ou já faltaram ao trabalho devido ao tratamento ou à dor. E tem mais: 48% das entrevistadas já precisaram entrar no auxílio-doença, pelo menos uma vez. “Esses dados confirmam o que os estudos internacionais já demonstraram: as mulheres com endometriose, quando comparadas à população saudável, têm uma renda menor e um importante impacto financeiro por conta da doença”, reflete Marília Gabriela, uma das fundadoras do Gapendi, que chegou a ficar cinco anos afastada do trabalho devido às complicações da endometriose. Estigma A maioria das mulheres, 55,8%, afirmou que a família, os colegas de trabalho e os amigos não entendem o que é conviver com a doença. Segundo a maioria das entrevistadas, as pessoas próximas consideram as queixas como “frescura” ou “exagero”, o que contribui para estigmatizar ainda mais a condição. “Boa parte das mulheres sente cólicas menstruais e sempre ouvimos falar que isso é normal. Porém, as cólicas nas mulheres que têm endometriose são muito intensas e incapacitantes, não passam com analgésicos simples e compressas mornas. Muitas vezes, é preciso ir para a emergência de um hospital para ter alívio da dor. O estigma da “frescura” ou do “exagero” é reforçado por quem não conhece a doença e afeta ainda mais o estado psicológico das mulheres que são atingidas pela doença”, reflete Marília. Comorbidades A endometriose é uma doença que não vem só. Ela traz consigo outras condições de saúde, ou seja, comorbidades. A pesquisa mostrou que 50% das entrevistadas recebeu o diagnóstico de ansiedade e estresse e um terço de depressão. Já a infertilidade, outro aspecto importante da endometriose, atinge 55% das mulheres brasileiras diagnosticadas com a patologia. Apesar do impacto na saúde mental, a pesquisa revelou que a maioria das portadoras de endometriose não é orientada a procurar apoio psicoterápico para lidar com a doença e metade daquelas que são orientadas não o faz por falta de recursos financeiros. Como as brasileiras lidam com a endometriose É na internet, mais especificamente nos grupos de ajuda, que 67% das brasileiras com endometriose encontram apoio para lidar com a doença. Para Marília Gabriela, diagnosticada com a endometriose em 2008, esse é um dado muito importante. “O Gapendi foi criado em 2009 por mulheres com endometriose que passavam pelas mesmas dificuldades, como falta de médicos especialistas, dores, falta de apoio, preconceito, etc. Se hoje a doença ainda é incompreendida, imagine há 10 anos”. “Quando a mulher descobre a endometriose se sente muito perdida e sozinha e pode até questionar se o diagnóstico está correto. Nos grupos, essa mulher se sente acolhida e percebe que não está sozinha, uma ajuda a outra. Inclusive, nosso grupo e os demais preenchem essa lacuna da falta de acesso à psicoterapia”, comenta Marília. Por último e não menos importante, a pesquisa trouxe um ranking das áreas mais afetadas pela endometriose. Em primeiro lugar ficou a autoestima. “A endometriose afeta muito nossa autoestima. O tratamento clínico é feito com hormônios que engordam. Muitas apresentam inchaço abdominal intenso. Outras precisam passar por diversas cirurgias e, em muitos casos, tirar os órgãos reprodutores. Isso pode impactar, por exemplo, na impossibilidade de ter filhos e gera um sentimento de incapacidade, de ser menos mulher”, comenta Marília.

Infecção nas tubas uterinas pode levar à infertilidade

Infecção nas tubas uterinas pode levar à infertilidade

A prevenção sempre é a melhor maneira de cuidar da saúde. Entretanto, na juventude, isso pode não ser tão lembrado e algumas mulheres acabam se descuidando na hora de manter relações sexuais. E uma relação sexual desprotegida pode levar ao desenvolvimento da Doença Inflamatória Pélvica (DIP), sendo a infecção das tubas uterinas, a salpingite, uma das piores sequelas da doença. Estima-se que em 85% dos casos, a DIP é causada por micro-organismos sexualmente transmissíveis. Segundo dados da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), 1 em cada 4 mulheres com DIP irá ter sequelas em longo prazo, como a infertilidade, que pode afetar até 40% das mulheres diagnosticadas com a doença. O que é DIP? Segundo o ginecologista Dr. Edvaldo Cavalcante, a DIP é uma infecção do trato genital superior, que acontece quando as bactérias ultrapassam o colo uterino, atingindo o útero, tubas uterinas e ovários. “Hoje sabemos que é uma infecção polimicrobiana, ou seja, vários micro-organismos podem estar envolvidos no desenvolvimento desta condição. Estima-se que 70% das infecções genitais são causadas por Clamídia, Gonococo, Mycroplasma e Ureroplasma”, explica o ginecologista. Como tudo começa No período menstrual e logo após a menstruação, o colo uterino apresenta uma abertura maior, há maior fluidez do muco cervical e contrabilidade uterina. Essas três características podem facilitar a ascensão das bactérias para o endométrio, tubas e ovários. Inicialmente, a DIP irá causar uma endometrite, ou seja, infecção do endométrio. Quando não tratada, a infecção pode evoluir para a salpingite (infecção nas tubas), abscesso tubo-ovarino e, em alguns casos, para uma peritonite pélvica. Estima-se que de 10 a 40% das mulheres que apresentam infecção gonocócica ou por clamídia, se não tratadas, irão evoluir para um quadro de salpingite aguda, infecção nas tubas uterinas. “Isso que pode acarretar na formação de aderências, que contribuem para a ocorrência de possíveis complicações, tais como dor pélvica crônica, infertilidade por fator tubário e gravidez ectópica”, comenta Dr. Edvaldo. Nem sempre há sintomas presentes As manifestações clínicas da DIP são muito diversificadas e isso pode atrasar o diagnóstico. Outro ponto é que algumas mulheres são assintomáticas e só descobrem o problema ao tratar a infertilidade. “A dor pélvica é uma manifestação importante, assim como corrimento vaginal amarelado ou esverdeado, odor vaginal forte, dor abdominal abaixo do umbigo, febre e dor durante o exame ginecológico. Algumas mulheres podem ainda apresentar sangramento uterino anormal, dispareunia (dor na relação sexual) e dor para urinar”, diz Dr. Edvaldo. Mulheres jovens são principais vítimas As mulheres jovens, entre 15 e 25 anos, representam o principal grupo de risco. Estima-se que aproximadamente 12% das adolescentes sexualmente ativas têm no mínimo um episódio de DIP antes dos 20 anos de idade. Além disso, início precoce de atividade sexual e múltiplos parceiros são importantes fatores de risco. Tratamento Após o diagnóstico, o tratamento geralmente é clínico com uso de analgésicos, antibióticos e retirada do DIU (dispositivo intrauterino). Entretanto, quando não há resposta do organismo à terapia medicamentosa, pode ser necessário realizar abordagem cirúrgica – videolaparoscopia- para drenar possíveis abcessos tubovarianos. “Os abcessos que se formam nas tubas e nos ovários podem se romper, disseminando a infecção para outros locais, o que é uma emergência médica”, explica Dr. Edvaldo. Prevenção A melhor prevenção é usar o preservativo em todas as relações sexuais e procurar diminuir o número de parceiros. Também é fundamental que as mulheres na faixa etária de risco consultem o ginecologista regularmente.

Entenda melhor a endometriose profunda

Entenda melhor a endometriose profunda

A endometriose se caracteriza pela presença de tecido endometrial (semelhante ao que reveste a cavidade uterina) fora do útero e atinge de 10 a 15% das mulheres em idade fértil. O tecido cresce em outros locais, se implantando na cavidade pélvica. Quando esses implantes alcançam uma profundidade maior que 0,5 cm e afetam outras estruturas e órgãos, como os ligamentos que sustentam o útero (útero-sacros), a bexiga, ureteres, o espaço entre o reto, útero e vagina (septo reto-vaginal) e o intestino, é chamada de Endometriose Profunda, sendo uma forma agressiva da doença. Segundo o cirurgião ginecológico Dr. Edvaldo Cavalcante, a endometriose profunda é uma forma mais agressiva desta patologia. Sendo assim, há uma severidade maior na manifestação dos sintomas, que pode afetar o bem-estar e qualidade de vida das mulheres. Em casos mais avançados, os implantes podem atingir nervos, diafragma e até pulmões. “A endometriose profunda manifesta-se por meio de diversos sintomas, sendo a dor pélvica crônica a mais importante, assim como a dismenorreia (cólica menstrual), fluxo menstrual abundante e dispareunia (dor durante ou logo depois da relação sexual). Também podem ocorrer dores para urinar, dor no fundo das costas, sangramento anal na época da menstruação e dificuldade para engravidar”, explica Dr. Edvaldo. “Os implantes do tecido endometrial passam por mudanças de acordo com o ciclo menstrual, com sangramentos periódicos. Essas hemorragias induzem a uma intensa reação inflamatória na região pélvica, com formação de aderências e distorção das tubas uterinas e ovários, entre outros impactos. Esse aspecto da endometriose é um dos principais fatores que levam à dor pélvica, que tende a ser pior justamente na época da menstruação”, explica o médico. Diagnóstico O diagnóstico é feito com base na avaliação clínica e em exames de imagem, como o ultrassom transvaginal com preparo intestinal. Além disso, a ressonância magnética é de grande importância no diagnóstico da endometriose. Todo caso é cirúrgico? Atualmente, a cirurgia não é a primeira opção para o tratamento da endometriose. Adota-se uma conduta conservadora, com o uso de medicamentos para controlar os sintomas e suspender a menstruação. “Entretanto, nas mulheres que não respondem ao tratamento hormonal, que apresentam um quadro de dor crônica e crescimento das lesões, há indicação para remoção cirúrgica dos implantes”, explica Dr. Edvaldo. Vale ressaltar que a terapia hormonal usada para tratar a endometriose é contraceptiva. Assim, a cirurgia também pode ser indicada para as mulheres que desejam engravidar. A cirurgia deve sempre ser realizada por um ginecologista especialista em cirurgia endoscópica. Quando há envolvimento do intestino é necessária a participação de uma equipe multidisciplinar – composta por um coloproctologista, além do cirurgião ginecológico. Vários estudos mostram que a remoção das lesões da endometriose, principalmente as que atingem o intestino, está associada a uma melhora significativa dos sintomas gastrintestinais e na qualidade de vida. “Apesar da melhora da dor, é preciso lembrar que a cirurgia não cura a doença, pois a endometriose é uma doença crônica. A taxa de recidiva é muito variável, segundo a literatura, podendo variar de 8 a 20 % em 2 anos e de até 40 % em 5 anos após o tratamento cirúrgico”, comenta o médico. Cirurgia robótica A cirurgia robótica representa o avanço mais significativo em cirurgia minimamente invasiva. “Como a endometriose profunda é complexa devido à penetração das lesões nos órgãos e tecidos, a cirurgia robótica pode ser recomendada. Isso devido ao seu alto nível de detalhamento das estruturas anatômicas e precisão dos movimentos, dando mais conforto e segurança para o cirurgião”, explica Dr. Edvaldo.